Um pouco de Artaud
Sobre Arte:Arte é sempre uma manifestação de mundo. Mundo é onde e como o ser se manifesta, a manifestação do ente na terra, que a partir daí (do mundo surgido e em tensão com a Terra) passa a Ser. A terra se tenciona com esse mundo, criando um movimento que é o próprio indivíduo e que é próprio dele, que só se dá enquanto indivíduo aí – no mundo – Mundo é a revelação do ser.
“O mundo é, enquanto a respectiva totalidade do em-vista de um ser-aí, posto por ele mesmo diante dele mesmo. Este pôr-diante-de-si-mesmo de mundo é o projeto originário das possibilidades do ser-aí, na medida em que em meio ao ente se deve poder comportar em face dele. O projeto de mundo, porém é, da mesma maneira como não capta propriamente o projetado, também sempre o trans-(pro)-jeto do mundo projetado sobre o ente. Este prévio trans-(pro)-jeto é o que apenas possibilita que o ente como tal se revele. Este acontecer do trans-(pro)-jeto projetante, em que o ser-aí se temporaliza, é o ser-no-mundo. “o ser-aí trancende” significa: ele é, na essência do seu ser formador de mundo, e formador no sentido múltiplo de que deixa acontecer o mundo, de que com o mundo se dá uma vista originária (imagem), que não capta propriamente, se bem que funcione justamente como pré-imagem (modelo revelador Vor-bild) para todo ente revelado, do qual o ser-aí mesmo faz, por sua vez, parte.” (Heidegger)1
Arte não pertence ao mundo linear sistemático. Heidegger explica a obra de arte como aquilo que se oculta e se desvela, como a clareira e a floresta: A clareira só existe enquanto clareira uma vez que a floresta a oculta e a floresta passa a ser floresta pelo referencial da clareira que se mostra. É nesse movimento de velar e desvelar que se dá a arte.
Arte não é regra, é exceção. Arte constitui seu próprio mundo, que é onde há um operar da verdade - e a verdade não é o que se pode explicar através de esquemas e provar através de equações matemáticas. A verdade dá-se. A arte, ou melhor, a Obra-de-arte dá-se. Ora, nossa sociedade metafísica fragmentada está em crise, são tantas exceções que a venerada ciência não consegue explicar. Surgem “abertos” no terreno sólido do nosso entendimento racional, e é nesses abertos que a arte se dá, e como Arte não explica nada, ela acaba também velando, desvelando, velando... criando esse mundo pulsante oposto à linearidade do culto da razão.
Certa vez havia um homem no ônibus cantando e falando sozinho, mas de um jeito que havia arte ali... De um lado a Bahia de Guanabara e o cheiro de maresia, de outro aquele ônibus cinza, fumacento, e aquele homem como um elo perdido, como um bardo sagrado, fazendo a função de juntar esses mundos através de sua arte latente - A arte nasce nos abertos que são deixados por aquilo que não se explica, nesse pavimento aparentemente sólido da representação/ explicação, das grandes questões nasce a grande Arte, não para respondê-las, mas para alimentá-las e alimentar-nos delas. E a arte desse homem não tinha encontrado seu aberto para brotar, então ela se infiltrava no asfalto do mundo planificado como uma erva daninha, incômoda, incompreensível.
Artaud compara o teatro à peste, que se infiltra nas casas, que não segue uma lógica em sua contaminação indiscriminada, que se infiltra nos órgãos, tomando a pessoa por inteiro... É um teatro poderoso, senhor da vida e da morte, como relacionar esse teatro mágico de Artaud ao gigante moribundo dos dias de hoje?
Artaud sem dúvida foi o grande semeador de sonhos e de questões que acompanham os pensadores dessa arte no século XX, grandes nomes como Grotowski e Peter Brook remetem-se a esse gênio insano para tentar resgatar o enfermo, para penetrar o asfalto do teatro contemporâneo de má qualidade com suas flores de erva daninha.
Inês: - És capaz de me dizer porque é que as flores crescem no estrume?
O Vidraceiro: - Crescem melhor assim por que têm horror ao estrume. A idéia delas é afastarem-se, o mais depressa possível, e aproximarem-se da luz, a fim de desabrocharem... e morrerem.
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