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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Ao Mestre Com Carinho!


Em 2008, tive a fantástica oportunidade de assistir um monólogo em cartaz no Sesc de São Gonçalo, estado do Rio de Janeiro. Tratava-se de “Jung e Eu”.

Surpreendentemente o ator – o qual sempre fui fã – “segurou” toda a apresentação solitariamente e, ao mesmo tempo, preenchia todo o palco, todo o teatro num indescritível domínio de personagem, de fatos, de tudo. Igual a este somente Fernanda Montenegro em Simone de Beauvoir, num também monólogo de tirar o fôlego de qualquer um.

Ao terminar a apresentação, eu e minha amiga (Tatiana Pailos) decidimos ir de encontro a este “monstro” do teatro. Muito simpático e generoso, trocou conosco meia dúzia de palavras e aceitou fazer uma foto. Estar ao lado de um ícone do teatro brasileiro é, sem dúvida, uma dádiva.


Sérgio Britto em "Jung e Eu" (2008)












Neste final de semana me veio a notícia: ele fez sua passagem. Vários lamentaram, choraram por aquele carismático senhor de oitenta e oito anos, que tanto fez pelo nosso teatro, que atuou na televisão e no cinema de maneira brilhantemente igual. Confesso que no início, ao saber do fato, fui tomada por uma tristeza. Contudo, em seguida, aquilo foi se esvaindo...

 
Sua passagem para outra realidade é, sem questionamentos, no momento devido. Já estava tão debilitado e, ao mesmo tempo, cheio de planos para o futuro... Futuro esse que sempre pertencerá àqueles que construíram uma boa parte do Teatro Brasileiro, que são exemplo para todos nós. O futuro pertence aos que lutaram para que hoje pudéssemos ter esta arte – ainda que banalizada por muitos – com uma identidade própria. Agora temos, todos, de zelar para que as próximas gerações tenham a capacidade de fazer jus a este ideal, hoje real, e não sujeitar a arte cênica como algo menor e sem valor, o que ocorreu por muitos séculos, e fazermos no agora o melhor que pode ser feito.
 
Para mim, Sérgio Britto não morreu. Ele ainda vive no meu coração, na minha memória, neste meu desejo e realização de ser atriz e uma pessoa apaixonada pela Arte. A mim jamais deixará saudade, ele fez a parte que lhe cabia. E eu, e acredito que tantos outros, ainda estão aprendendo e degustando a lição do mestre. Ao Mestre, todo o meu carinho!




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Clown, um viajante do tempo...








por Ana Elvira Wuo


Na rota das caravanas da Idade Média, as feiras e praças públicas se constituíam nos principais entrepostos comerciais e, conseqüentemente, nos locais de maior afluência popular. Nelas a vida acontecia assim: uns vendiam sua produção, outros abasteciam e todos se inteiravam das novidades trazidas pelos mercadores. Essa efervescência contribuía para torná-las ponto de encontro de artistas que perambulavam pelas estradas: os saltimbancos. Esses artistas que se expressavam nas formas mais variadas - acrobacia, equilibrismo, salto, ilusionismo, mímica, ventríloqua, música etc. - exibiam-se ao ar livre para qualquer platéia. Não se fixavam em nenhum lugar porque traziam no sangue o nomadismo atávico (OLIVEIRA,1990).
Numa sociedade marcada por uma conduta de convívio tendendo mais para a seriedade, a arte de fazer rir tem viajado através dos tempos, alterando o tom ríspido das ações das pessoas e das instituições, promovendo aquilo que todos buscam como meio para burlar a rigidez social, o riso. O meio burlesco é representado desde os primórdios por personagens cômicos que desmascaravam o rigor social por meio de uma cultura popular que parte de uma lógica específica marcada pela contradição e ambigüidade, isso influenciou a lógica do circo.
Segundo BAKHTIN (1987), na Idade Média e no Renascimento, o riso se manifestava de várias formas, opondo-se à “cultura oficial, ao tom sério, religioso e feudal da época”, é o cômico fazendo parte da cultura popular. Dentro dessas manifestações, faziam parte do carnaval, ritos e cultos cômicos os bufões tolos, gigantes, anões e monstros, palhaços de diversos tipos e categorias. O riso no contexto de Rabelais, tem função de libertar a sociedade da lógica dominante do mundo. Ele transforma a seriedade, propondo significados que permeiem as trocas da tonalidade da rigidez à comicidade, com caráter renovação, de morte ao antigo. No cômico, a morte não aparece como uma oposição à vida, mas como uma fase necessária para a renovação (BAKHTIN,1987).É de alguma maneira o aspecto festivo do mundo inteiro, em todos os seus níveis, cria uma espécie de segunda revelação do mundo através do jogo e do riso (BAKHTIN,1987).
Dentro desse contexto, DUARTE (1995) coloca que existem manifestações portadoras de uma lógica diferente das nações racionalizantes, sendo as primeiras valorizadoras de espetáculos verossímeis e representativos de um real, principalmente, nos espetáculos de teatro e circo, predominando nessas perspectivas a ambigüidade e o descomprometimento com os esquemas racionais.
Se avaliarmos, o clown por essa lógica diferente das noções racionalizantes, compreenderemos que ele desempenha função semelhante à dos bufões e bobos medievais quando brinca com as instituições e valores oficiais. Ele, pelo nome que ostenta, pelas roupas que veste, pela maquilagem (deformação do rosto), pelos gestos, falas e traços que o caracterizam, sugere a falta de compromisso com qualquer estilo de vida, ideal ou instituição. É um ser ingênuo e ridículo; entretanto, seu descomprometimento e verdadeira ingenuidade lhe dão poder de burlar situações, pessoas com certa impunidade (BURNIER,1996). Apesar disso, os personagens bárbaros, os artistas, nômades, desenraizados, quase vagabundos, são principalmente civilizadores e exercem ricas funções de produção, transformação e difusão cultural (DUARTE,1995).
Esse passageiro ao avesso, se materializa nos personagens cômicos, nos clowns, nos palhaços de feira; está embutido em todos os seus ancestrais cômicos, revelando as imagens de corpos que estremecem no devaneio bipolar de sonhos-realidades, no espírito do riso que transpassa o som de nossa memória do picadeiro e capta em fuga nossas ilusões. O riso é mistério que desmistifica o opressor. Segundo BURNIER (1996), o princípio desmistificador do riso, presente na cultura popular medieval renascentista, apareceu no cômico circense, fundamentado basicamente na figura do palhaço. Em suas andanças pelo tempo, o clown ocupou diversos espaços: a rua, a praça, a feira, o picadeiro, o palco, o cinema.
Contextualizar esses personagens e o riso em si, seria fechar a criatividade em formas e tempos. Arte e espírito cômico passeiam pelos espaços, dirigindo-se ao âmago da criação sem se estagnarem no passado ou no presente, mas envolvidos com o clima de fugas e devaneios de corpos em desequilíbrio social, que passam a formar as linhas da travessia do trapezista pelos olhos do espectador na corda bamba, saltando para a bola vermelha do nariz do clown e escorregando no redondo do mundo, fazendo círculos no grande picadeiro terrestre, veículo condutor do viajante nômade, o clown.
Vemos que, no decorrer da história, esses atores, tipos cômicos, palhaços, bufões não deixaram de fazer parte do divertimento das pessoas, apesar do controle existente sobre eles. Esses artistas resistiram até nossos dias, porque esse corpo se tornou resistente a regras e normas e se transformou. Ele é o corpo do artista que precede o espírito e o corpo dos atores, cômicos, clowns, para ainda nos fazerem rir das dificuldades da vida. Resiste até nossos dias com uma lógica específica como movimento contrário ao controle social e aos processos civilizadores. Olhamos para esse movimento como um tipo de resistência a qual a arte imprime, embora existam processos para estabelecer o funcionamento das estruturas sempre existirá na arte o mecanismo de adaptação e transformação, que guarda a existência secreta de outras divindades que formam a identidade de subverter independente da realidade existente. É a alma, o espírito de Dionísio se mostrando em todas as partes e em todos, buscando a renovação por meio da ressurreição do divino, representado por Dionísio, e da morte de antigas convenções.
O viajante que passa pelos tempos, participa na construção de sonhos, de esperança e de alegria, para comungar e consumar o seu ato e ofício em que os problemas do clown são solucionados pelo globo vermelho visto por meio do grande espetáculo dos fools(espíritos dos clowns), subvertendo e burlando a ordem das coisas para que o espectador adorne-se com a arte de rir da sua própria dor (WUO,1999).
“O clown nos ensina rir de nós mesmos”
(MILLER,1989).

terça-feira, 27 de setembro de 2011

BAILAR O TEATRO, DRAMATIZAR O BAILE!


O CASO DE ANANDA DANSA

Nel Diago

Falar de teatro "não aristotélico" na Europa é falar, claro, de Antonin Artaud. Um criador cujo magistério só alcançará pleno reconhecimento na última terça parte do século XX. Direta ou indiretamente o rastro artaudiano se deixará sentir em grande parte das manifestações cênicas de nosso tempo. Assim ocorre, por exemplo, com um dos mais recentes fenômenos estéticos do Ocidente: o "teatro-dança". Um termo impreciso e, para muitos, insatisfatório e que, seguramente, conviria matizar. Dois são os componentes que concorrem neste discutível rótulo que trata de fixar uma nova tendência cênica consolidada nos anos oitenta, na Europa, preferentemente do sul (França, Itália, Espanha), ainda que a inegável pioneira seja Pina Bausch e o Tanztheater alemão. Esta nova tendência cênica está estreitamente aparentada, há quem duvida, com a arte do corpo, é dizer: com a dança, e é uma das conseqüências da grande revolução estética impulsionada pelos grandes criadores dos Es! tados Unidos (Martha Graham, Mercê Cunningham, Alwin Nikolais, Carolyn Carson). Mas o teatro-dança vai além do baile; seu objeto, no dizer de Leonetta Bentivoglio:

... não é nunca a exploração ou o descobrimento de novos movimentos enquanto tais, senão a identificação de novos modos de comunicar mediante o trâmite do movimento. Graças às recentes experiências sobre a "narração" – e naão importa que aqui se entenda uma narração metafórica, indireta ou traduzida – o desprestigiado "conteúdo", palavra caída criticamente em desgraça, totalmente terrorífica e passada de moda, parece quase reencontrar sua respeitabilidade."


Por isso mesmo é preciso delimitar seu território e não confundir o teatro-dança com outras manifestações estéticas que podem englobar-se sob distintos rótulos, como "nova dança", "dança pós-moderna" "dança de autor", etc., mas que dão puramente "dancísticas". É claro que nem sempre é fácil ou seguro uma classificação estrita, mas nem por essa razão é menos necessária. Talvez tudo fosse mais diáfano se colocássemos a ênfase no primeiro elemento conformante do conceito, ou seja, no teatro. Assim o fazem César Oliva e Torres Monreal. Para estes pesquisadores, o que se pretende com esta modalidade é que a dança forme "parte da poética do espetáculo", que se integre "nele como uma linguagem conformante de pleno direito. Não é de modo algum casual, pois, que o fenômeno haja adquirido carta de natureza nos grandes festivais internacionais de teatro, ou que seus espectadores habituais procedam majoritariamente do publico teatral. E é que por detrás do teatro-dança ! também estão as experiências libertadores de Grotowsky ou o Living Theater. E, em última instância, a tradição artaudiana.

Recordemos, em conseqüência, algumas frases do que fora chamado o metafísico do teatro:

"Afirmo que a cena é um lugar físico e concreto que exige ser ocupado, e que lhe permitam falar sua própria linguagem concreta.

Afirmo que essa linguagem concreta, destinada aos sentidos, e independente da palavra, deve satisfazer todos os sentidos; que há uma poesia dos sentidos como há uma poesia da linguagem, e que essa linguagem física e concreta não é verdadeiramente teatral a não ser quando expressa pensamentos que escapam al domínio da linguagem articulada.

[...]

Essa linguagem é tudo quanto ocupa a cena, tudo quanto pode manifestar e expressar materialmente numa cena, e que se dirige antes de mais nada aos sentidos ao invés de dirigir-se primeiro ao espírito, como o faz a linguagem das palavras.

[...]

Essa linguagem criada para os sentidos deve ocupar-se antes de mais nada de satisfaze-los. O que não impede de em seguida desenvolver todas as suas conseqüências intelectuais em todos os planos possíveis e em todas as direções. E isto permite a substituição da poesia da linguagem por uma poesia no espaço que se resolverá justamente naquele domínio das coisas que não pertencem estritamente às palavras.

[...]

Essa poesia, muito difícil e complexa, assume múltiplos aspectos, especialmente aqueles que correspondem aos meios de expressão utilizáveis em cena, como música, dança, plástica, pantomima, mímica, gesticulação, entonação, arquitetura, iluminação e cenário."


Pois bem, todas estas idéias estão inequivocamente presentes na concepção estética que preside o trabalho de Ananda Dansa, uma das companhias espanholas que mais abertamente têm abraçado a bandeira do teatro-dança, até o ponto de autodefinir-se como "Teatro do baile".

O grupo foi fundado em 1981 por Rosangeles Valls. O título de seu primeiro espetáculo, Dansa, respondia claramente à linha adotada pela coreógrafa valenciana formada em Paris; isto é: dança contemporânea. Mas já em 1982, quando o grupo se apresenta em Sala Escalante de Valência, com uma remontagem deste primeiro espetáculo, o fará sob o nome de "Ballet-Teatre Ananda Dansa" e, ademais, dois dos quadros, os intitulados Brada versus muerte e El viatge, aparecem assinados por Edison Valls. Em efeito, será a incorporação deste último o que marque a definitiva adesão de Ananda Dansa ao teatro-dança. O irmão da fundadora do grupo estudou Arte Dramática em Valência e conhecia de perto o trabalho de Eugenio Barba com o Odin Teatret, mas sua prática teatral era muito reduzida na ocasião. Mas sua integração nas funções de dramaturgo e diretor cênico traria consigo uma mudança de rumo fundamental para a companhia. Dessa feliz conjunção fraternal nas! ceram Destiada (1984), Crônica civil (1986), e Homenaje a K (1988). Os três espetáculos formam a trilogia sobre a violência, aos que seguirá a última produção por agora, Basta de danza (1990), de título bem expressivo.

Em todas e em cada uma dessas montagens, Edison Valls, com o auxílio das coreografias de Rosangeles – mas também com a colaboração inestimável das partituras musicais de Pep Llopis, da iluminação de Eric Teunis e do trabalho plástico do arquiteto e cenógrafo Carlos Montesinos – tem sabido recriar essa "linguagem física e concreta" que reclamava Artaud, essa "poesia no espaço" capaz de conceber "imagens materiais, equivalentes às imagens verbais". Todos os meios de expressão que reclamava Artaud: a música, a dança, a plástica, a iluminação, o cenário, a gesticulação..., se combinam em perfeita osmose nos espetáculos de Ananda Dansa. E nem sequer falta ocasionalmente a palavra, mas não como linguagem oral articulada, senão ao modo que sugeria o teórico francês, ou seja, como projeção sonora.

Todo ele comporta uma maneira radicalmente distinta de mostrar o fato cênico ao público e exige, de passagem, uma resposta também radicalmente diferente. Durante séculos nosso teatro, o teatro ocidental, está ligado ao Logos, tem sido orientado em direção ao espírito, nas palavras de Artaud, antes que aos sentidos. Não tem sido essa a evolução em outras tradições, como as orientais, nas que os diversos códigos teatrais (o gesto, o movimento, a voz, a dança...) formariam desde sempre a trama inextricável da comunicação cênica. E isto mesmo é o que pratica Ananda Dansa; seu caminho não vai da razão à emoção, senão ao contrário. Isso implica uma nova forma de "mirar" para o espectador não habituado. São os sentidos os primeiros que hão de apurar o caldo estético e somente depois é que a mente deverá racionalizar as sensações. E este último faz-se importante sublinha-lo porque, para Ananda Dansa, o processo ficaria incompleto sem essa operação posterior de recon! strução. Seus espetáculos não buscam unicamente subjugar ao espectador através da beleza formal, pretendem alcançar também seu intelecto. Tal e como queria Artaud, para quem a linguagem criada para os sentidos não impedia "desenvolver plenamente seu efeito intelectual em todos os níveis possíveis e em todas as direções".

Esta, precisamente, é a chave do teatro-dança. Como apontava Leonetta Bentivoglio, o elemento diferenciador desta modalidade cênica é a narração, mediante a qual se recupera o tão denotado "conteúdo". A mensagem poderá parecer obscura, dificilmente impenetrável, a quem não esteja acostumado a lidar com esta mescla de códigos. Mas está aí. Um espetáculo de teatro-dança não é uma mera combinação de formas abstratas. Podemos comprova-lo em cada uma das montagens de Ananda Dansa. Em Destiada, a primeira entrega da trilogia sobre a violência, Edison Valls expressava, não sem patetismo, esse "destino bestial" que enfrenta a um nobre animal, o touro, com uma pobre "maletilla", surgido das capas marginais da sociedade, numa absurda cerimônia sangrenta. Em Crônica civil, uma reflexão sobre a guerra civil espanhola vista sob a ótica da infância, a violência não menos absurda do conflito bélico será todavia mais brutal que em Destiada, ao desaparec! er qualquer alento épico e ser precisamente crianças os que padecem. Finalmente, em Homenaje a K, Edison Valls assumirá o risco de enfrentar-se com um tema de grande atualidade: o terrorismo (terrorismo de Estado ou contra o Estado); agora sim, o que conta aqui não são tanto os sucessos violentos, como a chamada de atenção sobre a nossa sociedade, indigesta e satisfeita, que engole seu pão enquanto contempla sem se alterar as imagens da estúpida violência cotidiana. Concluída a trilogia, Ananda Dansa centrará sua mirada num contexto diferente: a guerra dos sexos, exemplificada nas velhas lendas universais das amazonas. Ninguém suspeitaria que sob esse título, Basta de danza, se aborda o exame da condição feminina. Mas esse exabrupto que dá nome ao espetáculo tem sua justificação. Com ele Ananda Dansa nos adverte que, apesar da denominação da companhia, apesar de suas origens e apesar do recurso da dança, sua estética vai por outros itinerários. O que eles fazem! é teatro; um teatro que une o mais arcaico e primitivo da arte cênica com a mais sofisticada tecnologia da sociedade contemporânea. Mas, em todo caso, um teatro não aristotélico.

Nel Diago é professor da Universitat de València. Tradução de Wilson Coêlho.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Universidade Livre de Niterói


A Universidade Livre de Niterói propõe um ciclo de palestras gratuitas na cidade, aberto aos professores da rede pública e privada.

Para maiores informações, acesse: http://www.unilivreniteroi.com.br/


terça-feira, 14 de junho de 2011

HITCHCOCK - Vale a pena conferir!!




Vale a pena conferir!!


Como não lembrar!? Fernando Pessoa!

Fernando Pessoa com o pseudônimo Alberto Caeiro
Breve homenagem com trechos da poesia "O Guardador de Rebanhos"



I - Eu Nunca Guardei Rebanhos



Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

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XXII - Num Dia de Verão


Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

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XXXVI - Há Poetas que são Artistas



E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...
Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem sei eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao solo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.

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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Parabéns para a DANÇA!


Adotando-se uma perspectiva diacrônica, percebe-se que a dança, como forma de expressão, passou por vários estágios na história da cultura. Dos rituais primitivos às danças religiosas e pagãs, das danças da corte até as formas especializadas da dança teatral, é vasto o paradigma que se poderia abordar. No entanto, sincronicamente, recorta-se aqui o contexto da dança como forma artística no século XX, ou seja, as manifestações que acabaram por constituir a chamada Dança Moderna.

No século XX, a história da dança registra uma sucessão de questionamentos sobre as suas formas de expressão. Primeiramente com Isadora Duncan [1] e a escola Denishawn[2] reagindo contra o ballet clássico, em busca de uma nova linguagem para o corpo, os pés se firmam no chão, a cintura e a espinha se tornam flexíveis e o bailarino, enfim, sai da vertical. Depois, nos anos 20 e 30, com Martha Graham [3] , Doris Humphrey [4] e Mary Wigman [5] , principalmente, a dança passa a estilizar formas da própria vida do homem. Essas artistas criaram uma dança nova, densamente dramática, com traços expressionistas, que se convencionou chamar de Dança Moderna.

A geração de criadores em dança do segundo após guerra veio a produzir um novo abalo. Influenciados pelo trabalho de Alwin Nikolais[6] , afirmam a dança como arte do movimento e não mais como forma narrativa. Desse modo, deixando de significar algo que lhe fosse exterior, a dança se desvincula de um conteúdo, no sentido tradicional do termo, deixando de ser teatral e dramática. Desponta aí um caminho para a especialização, para o formalismo e para o minimalismo, tornando-se a dança uma arte estrutural e lúdica.

No entanto, mais recentemente, por volta dos anos 80 e 90, pode-se perceber um retorno a aspectos narrativos e dramáticos, um resgate do conteúdo, da elaboração semântica da dança. Isso suscita um retorno também àquela geração que, por volta da década de 30, rompia com a tradição e fundamentava a dança moderna. Neste ínterim, ressalta a figura de Martha Graham como grande intérprete, professora e coreógrafa, que instaurou uma linha de seguidores e um paradigma de obras coreográficas que permeia todo o século XX.

Para Alberto Dallal, o trabalho de Martha Graham pode ser comparado com o de Pablo Picasso pelos caminhos que abre, pelos conhecimentos que incorpora e pelas obras que faz proliferar[7] . Trata-se de uma artista do espetáculo que assentou definitivamente os recursos, procedimentos e possibilidades da dança moderna. Neste sentido, a artista representa uma conjuntura na história da dança não apenas por sua capacidade de construir técnicas, mas muito mais por sua imaginação criadora e sua ação integradora no campo das artes do espetáculo.

É justamente por se pautar numa pesquisa que volta às origens da cultura, por resgatar de lá princípios básicos da concepção artística, que Martha Graham consegue revolucionar o seu tempo. Buscando ligações artísticas que foram sendo perdidas ao longo do tempo, aponta para a transformação da história da dança, da arte e da cultura. A exemplo disso, é notória a utilização de recursos cênicos que se tornariam comuns muito tempo depois, tais como cenários móveis, objetos cênicos simbólicos, decoração fragmentária, textos incorporados à dança, coreutas bailarinos que, ao estilo oriental, fazem comentários sobre o espetáculo, com caráter metalingüístico. Tudo isso, pensando-se nos processos de composição, imprimem ao seu trabalho as características de intersemiticidade nos moldes concebidos, por exemplo, por Júlio Plaza em Tradução Intersemiótica [8].

De modo geral, o trabalho de Martha Graham insere-se no contexto das rupturas empreendidas pelas formas artísticas em geral, no início do século XX, e é dentro deste espírito de inversão que se opera nas artes, da pintura à dança, que Martha Graham não simplesmente procura recriar um espetáculo visual, mas uma realidade poética nova.

De acordo com Roger Garaudy[9] , nas criações da artista pode-se depreender o prolongamento do esforço expressionista da pintura de Daumier ou de Van Gogh; das crispações e angústias de Dostoiévsky e da visão trágica de Nietzsche. Além disso, quando a dança não lhe oferecia modelos nos quais pudesse se inspirar, voltava-se para outras artes, como a pintura de Picasso, as pesquisas abstratas de e os livros de Kandinsky, a música de Bela Bartok, o surrealismo de T.S. Eliot; sem falar na psicanálise de Freud e Jung. De acordo com o autor, Martha Graham, através da leitura de Platão, passa a ver a mitologia como a psicologia de outra época. Estudando Freud, e depois Jung, com sua concepção dos “arquétipos”, buscou inspiração e o desejo de tornar visíveis as realidades interiores, escondidas sob os símbolos aceitos. Por tudo isso, voltar à dança moderna e à Martha Graham é fazer uma ponte com a produção mais recente em dança e espetáculo; é abrir uma porta para a percepção das atuais formas de expressão, quando despontam teoricamente a contaminação dos gêneros e formas artísticas, bem como os processos que encerram a plurilinguagem.

Cabe ressaltar a proposta de uma visão atual sobre a dança, no sentido básico da dança moderna: a expressão do corpo. Depois de quatro séculos de ballet clássico e vinte de desprezo do corpo por um cristianismo pervertido pela dualidade platônica, na dança do século XX, importa o corpo em todas as suas formas e possibilidades expressivas; importa o corpo pronto para a sua própria reinvenção.

Neste sentido, faz-se pertinente uma abordagem do movimento enquanto discurso, da dança enquanto linguagem, como meio para a produção de textos e variantes textuais[10] . Assim, no trabalho de Martha Graham, evidencia-se um fenômeno de síntese cultural, calcado em incursões que esta artista faz em inúmeros aspectos da Arte, da História e da Cultura como um todo.

Entre estas incursões ressalta o seu trabalho com a literatura, principalmente textos literário-teatrais, como as tragédias gregas. Martha Graham estabelece em sua obra coreográfica um diálogo com o teatro grego em diferentes níveis. Em termos da intertextualidade (e, por conseguinte: intervisualidade, intersemioticidade), propõe processos de rapto, absorção e integração de elementos numa obra nova [11], apontando, dessa forma, para a recriação de formas e temas que constitui um processo de reinvenção.

Pode-se dizer que esta artista faz-se autora de novas obras artísticas, numa linguagem revigorada, trazendo a tona o texto grego redimensionado pelos contrapontos que estabelece, permitindo a reinterpretação dos mitos, e o estudo da reinvenção de personagens da tragédia grega.

Na relação dança/literatura dramática, diferentemente do texto literário narrativo, as personagens constituem praticamente a totalidade da obra, nada existe a não ser através delas, como disserta Décio de Almeida Prado[12] , que explica em seu estudo sobre a personagem no teatro que, embora tanto o romance quanto o teatro falem do homem, o teatro o faz através do próprio homem, da presença viva e carnal do ator. Ora, tal fato se dá também com a questão da dança, cuja máxima é o corpo.

Diante de tais considerações, ressalta o trabalho coreográfico como um texto “dançado” que se faz centralizador[13] do discurso literário-teatral, dando continuidade e elevando a questão da presença cênica dos personagens, vinculando, neste processo, o gesto e o movimento ao texto verbal (tragédia) que lhe serve de inspiração e material para a reelaboração artística. Trata-se de um discurso interartístico protagonizado pela dança moderna, que incorpora e reinventa a tragédia, estratificando muitos outros dados da cultura (da mitologia à psicologia, por exemplo), e propondo novas formulações conteudísticas, formais e estéticas.

UMA NOVA LINGUAGEM PARA A DANÇA

Martha Graham é considerada uma das mais importantes e influentes artistas do mundo. Na arte do século XX, integra um pequeno grupo de artistas que rompeu moldes tradicionais e criou novas formas de expressão, desafiando antigos modos de percepção. Entre eles pode-se destacar a presença de Picasso, Stravinsky, James Joyce, Saint-John Perse. Sua postura é de enfrentamento e liberdade, foi uma individualista ferrenha que, explorou ardorosamente as paixões em que se alicerça a alma humana.

É o que se evidencia em Memória do Sangue[14] . O livro é um auto-retrato, uma autobiografia de uma artista ousada e visionária, cuja linguagem tocou os desejos, os medos e as emoções do homem moderno. Conta a história de uma mulher que lutou contra todo tipo de hipocrisia e adversidade, criando um estilo que impõe força, erotismo e amor. Sua linguagem pauta-se numa aguda observação do mundo que a cerca . Cabe ressaltar que ela viveu numa época de angústia e revolta: a Primeira Guerra Mundial e a crise de 1929, que fizeram vir a tona em seu país o horror e o terror, são momentos de uma parte de sua trajetória.

Numa tendência sugestivamente expressionista, Martha Graham quer falar ao homem moderno sobre o mundo moderno, quer gritar, com intensidade e paixão, que houve o amor e a alegria, mas também o ódio e o pânico.

Neste momento de caos, consegue propor uma técnica gestual e corporal: realizou movimentos espasmódicos e violentos, impulsos bruscos em que o corpo parece projetar-se num abismo. No conjunto, apresenta meios dramáticos para exprimir as sensações mais diversas, o terror, a agonia ou o êxtase.

Do ponto de vista da concepção, Martha distancia-se tanto da dança tradicional (ballet clássico) quanto dos pensamentos modernos precursores a ela.

Não ambiciona a expressão graciosa que disfarce o esforço físico, nem sequer pretende imitar elementos da natureza, busca uma expressão humana, densa e significativa.

“Eu não quero ser uma árvore, uma flor, uma onda ou nuvem. No corpo de um bailarino devemos, como espectadores, tomar consciência de nós mesmos. Não devemos procurar uma imitação das ações quotidianas, dos fenômenos da natureza ou criaturas exóticas de outro planeta, mas sim alguma coisa deste milagre que é o ser humano motivado, disciplinado e concentrado.” [15]

Neste trecho, evidencia-se os dois pontos-chave do trabalho de Martha Graham. Primeiramente sua concepção de dança como algo que transcende a mera imitação dos elementos do mundo ou mesmo dos próprios homens. Depois, o seu pensamento técnico ao considerar o corpo, uma vez que, dos criadores damodern dance, Martha Graham foi a única que concebeu um método de treinamento físico concernente com as idéias que propunha em termos teóricos.

Quanto à temática, também revoluciona, incorporando elementos que destroem a concepção de dança que prevalecia até então: uma arte que servia-se apenas para se expressar o prazer e o sonho. Suas coreografias falam de problemas do seu tempo, e centram-se sobretudo nos aspectos femininos. Distancia-se, assim, da generalidade de assuntos dos trabalhos de Isadora Duncan e também da religiosidade de Ruth Saint-Denis.

Acentuando o que o homem tem de monstruoso e de glorioso, salienta:

“Quero falar sobre problemas do nosso século, onde a máquina perturba os ritmos do gesto humano e onde a guerra fustigou as emoções e desencadeou os instintos.”[16]

Fica claro, portanto, que a coreógrafa dialoga com o seu tempo, enxerga o homem histórico que está a sua volta e tem a pretensão de se posicionar artisticamente frente a este contexto. É desta percepção aguda, associada a sérios estudos, que Martha Graham vai retirar o material para a construção de sua técnica e para a concepção de suas criações. A afirmação acima pode levar, inclusive, a uma associação com o Futurismo de Marinetti, quando os movimentos coreográficos acabam demonstrando a contaminação pelo gesto cotidiano moldado no trabalho com a máquina, propondo a sua superação. Lembrando o antológico filme de Charles Chaplin, Tempos Modernos, o uso de uma movimentação angulosa , com ritmo marcado e preciso, sugere o confronto com a estética futurista. Denota-se, portanto, que a obra de Martha Graham serve-se do rico laboratório de formas e temas constituído pelas vanguardas européias do início do século XX. Na composição de suas personagens pode-se verificar a influência expressionista na dramaticidade, que se complementa com o futurismo em aspectos formais e técnicos.

Do ponto de vista técnico, Martha Graham estabelece como fundamentos básicos originais o trabalho no eixo vertical do corpo humano, em movimento de

expansão (release) e recolhimento (contraction) num treinamento em que a respiração e consciência do plexo solar (ponto existente no corpo humano, aproximadamente quatro dedos abaixo do umbigo, bastante abordado na filosofia oriental) eram aspectos básicos para a compreensão do seu sistema. As coreografias eram geralmente dançadas de pés descalços, em movimentos mais angulosos e próximos do chão.

Roger Garaudy, ao analisar os trabalhos de coreografia, nota que o propósito de Martha Graham é fazer com que a energia do mundo passe através da obra e lhe dê vida. Para atingir esta meta, a artista transformou profundamente o vocabulário e a sintaxe da dança. Desenvolvendo melhor os aspectos técnicos acima enunciados, Garaudy ressalta que o ponto de partida desta nova gramática corporal é o ato de respirar. O fluxo e refluxo da respiração estão intimamente ligados aos movimentos do tronco, que se contrai para expirar e se dilata para inspirar. Por fluxo e refluxo pode-se inferir a contração (o corpo em si recebendo as forças da vida) e a expansão ( o corpo para os outros e para o mundo).

Todo movimento expressivo da vida tem, pois, sua origem no ritmo primário de inspiração e expiração, numa concentração de forças num centro motor, seguida de irradiação. Este centro motor não está estritamente localizado em um único ponto: é no tronco todo que se atam e desatam as forças da vida. Martha Graham coloca o ponto de apoio de todos os movimentos na região pélvica e genital, no centro da qual se agitam os tumultos do sexo, numa leitura psicanalítica, e o centro da vida, para a filosofia oriental. Situando-se abaixo do diafragma, esta região obedece à dilatação ou contração dos pulmões. Neste espaço corporal, situa-se a conjunção das duas grandes linhas de força da vida: a vida do indivíduo na respiração e a vida da espécie na sexualidade. O ritmo da respiração dita as pulsões e pulsações primordiais e, ao centrar-se nele, a técnica de Martha Graham consegue a força da projeção externa e as possibilidades expressivas.

Para Martha Graham, não bastava situar no tronco, de maneira genérica, a origem do movimento e da expressão, era preciso descobrir o seu significado vital, estabelecendo sua ligação com os passos fundamentais da vida do indivíduo e da espécie. Sendo assim, sua técnica estabelece uma relação recíproca entre uma regra de arte e uma regra de vida.

O segundo princípio da técnica de Martha Graham é concentrar numa obra (no corpo do dançarino) um núcleo mais denso da realidade. Daí seu trabalho tentar sempre intensificar o dinamismo do ato corporal. Tanto o movimento de contração quanto o de relaxamento manifestam-se como impulsos bruscos, convulsivos, projeções violentas do corpo inteiro. Em contradição direta com o ballet clássico (com suas simetrias, harmonias e graça permanente), esta técnica não evita bloqueios brutais nem rupturas interiores. A emoção se exterioriza em paradas bruscas, mudanças inesperadas de direção e distorções agressivas. Os próprios movimentos de transição são opostos ao classicismo, pois se usa os joelhos flexionados, movimento em giro sobre as coxas e a coluna vertebral fora do eixo. Com isso, Martha Graham não pretende mascarar o esforço, as hesitações, os fracassos, mas, ao contrário, pôr a nu o homem do nosso século.

Diante das informações expostas, pode-se depreender que os estudos de Martha Graham acabam por constituir-se num método organizado. Aos dois primeiros aspectos desta técnica, o ato de respirar e ao dinamismo intensificado, somam-se outros dois fatores: a relação com o chão e o princípio da totalidade.

Em vez do esforço do ballet clássico para fugir do chão, busca-se a terra viva e carnal, encontra-se o sentido da terra maternal, terra matriz. No contato com o chão surge o homem vivo, real e redimensionado não mais pelo romantismo ou pelo classicismo, mas por uma atitude moderna que busca, na verdade, a sua essência imortal, unindo o homem primitivo ao moderno no que podem ter em comum: anseios, desejos e angústia perante os fatos da vida e do mundo.

Pelo princípio da totalidade entende-se uma concepção de movimento, o movimento expressivo que será capaz de demonstrar todo este universo conceitual e técnico que se revela neste método. O corpo todo é um instrumento articulado, coordenado e orientado. O tronco, os ombros, os braços, o rosto, o ventre, os quadris e as pernas formam um todo único, um conjunto significativo. Mais que uma lição de dança, representa uma lição moral no sentido de que o homem deve ser integralmente o que é em tudo aquilo que faz.

Para Garaudy, refletindo sobre o método de Martha, este expressa uma concepção de vida e de mundo, num sentido profundo do que pode ser a comunicação humana, a comunicação direta, de espírito a espírito, através de um corpo. Neste sentido, as dissonâncias, acentos, impulsos e quedas dizem respeito aos homens diretamente, por representarem atitudes corporais de desafio de forças como a gravidade, a cinética, o tempo. Pode-se aqui, inclusive citar um trecho em que este estudioso coloca-se enquanto leitor do método de Martha Graham.

“(...)Através desta dança não ouço apenas o grito de um indivíduo, mas, em toda a sua grandeza, o discernimento profético sobre o que está morrendo e o que está nascendo no nosso século. O movimento não pode mentir. Ele trai a menor de nossas desistências, a menor de nossas covardias, mas traduz também toda a nossa capacidade de recuperação e superação.

Nossos gestos não são somente um reflexo ou um eco passivo de uma solicitação exterior, pois todo movimento de dança procede de centro do corpo para a periferia, unificando o ser e impedindo-o de se dispersar. Pela disciplina da dança exercemos o direito imprescindível de retomada de nós mesmos. Com Martha Graham, a dança moderna, como forma de relacionamento com os homens e com a história, não é somente uma forma de comunicação: torna-se um aspecto da consciência do mundo que está se construindo.”[17]

O autor disserta sobre o caráter profético da obra de Martha Graham, no legado que deixa, principalmente na consideração final, quando vê a obra da artista não apenas como manifestação cultural, forma de comunicação, mas como uma profunda análise do homem, que aponta para a construção de uma consciência do mundo.


BIBLIOGRAFIA

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DALLAL, Alberto. La Danza Moderna. Collección Testimonios del Fondo (38). México: Fondo de Cultura Economica, 1975.

GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Trad. de Glória Mariani e Antonio Guimarães Filho. 3a. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

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GRAHAM, Martha. Memória do Sangue. Trad. Cláudia Martinelli Gama. São Paulo: Siciliano, 1993.

GUIMARÃES, Elisa. A articulação do texto.

JENNY, Laurent. “A estratégia da Forma”. In: Intertextualidade. Coimbra: Livraria Almedina, 1979.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Flores da Escrivaninha. São Paulo: Cia das Letras,1990.



[1] Isadora Duncan (1877 - 1927) pioneira dançarina norte-americana, que reagiu contra o ballet clássico, procurando inspiração nos elementos da natureza. (Ver: DUNCAN, Isadora.Minha Vida. Rio: José Olímpio, 1985.)

[2] Escola fundada por Ruth Saint Denis e Ted Shawn, com sede em Los Angeles e que durou de 1915 a 1931.

[3] Martha Graham ( 1894-1991) bailarina, coreógrafa e professora norte americana, uma das matrizes da dança moderna.

[4] Doris Humphrey (1895-1958) bailarina, professora e coreógrafa americana, uma das primeiras a privilegiar o trabalho espacial do bailarino e as noções de queda e recuperação na dança.

[5] Mary Wigman (1866-1973) bailarina, coreógrafa e professora alemã, criadora da dança expressionista na Alemanha.

[6] Alwin Nikolais (1912) dançarino, coreógrafo e professor americano, propôs a constituição de “peças e visão”, pianista, estudou com Graham, Humphrey e Hanya Holm.

[7] DALLAL, Alberto. La Danza Moderna. Collección Testimonios del Fondo (38). México: Fondo de Cultura Economica, 1975.

[8] GONZALES, Julio Plaza. Tradução Intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 1987.

[9] GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Trad. de Glória Mariani e Antonio Guimarães Filho. 3a. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

[10] Conforme expressão usada em: GUIMARÃES, Elisa. A articulação do texto.

[11] KRISTEVA, Julia. Apud. PERRONE-MOISÉS, Leyla. Flores da Escrivaninha. São Paulo: Cia das Letras, 1990. (p.94)

[12] ALMEIDA PRADO, Décio. “A personagem no teatro”. In: A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva , 1968.

[13] JENNY, Laurent. “A estratégia da Forma”. In: Intertextualidade. Coimbra: Livraria Almedina, 1979.

[14] GRAHAM, Martha. Memória do Sangue. Trad. Cláudia Martinelli Gama. São Paulo: Siciliano, 1993.

[15] GRAHAM, Martha. Apud. GARAUDY, Roger. Op. Cit. p.89.

[16] GRAHAM, Martha. Apud. GARAUDY, roger. Op. Cit. p. 89.

[17] GARAUDY, Roger. Op. Cit. p. 101.


Biografia

Durante os seus anos de formação, Graham passou a maior parte do tempo na Costa Oeste. Seu pai, um médico especialista em disfunções neurológicas, tinha grande interesse no diagnóstico através da observação dos movimentos físicos.

Martha aos 54 anos.

Essa crença de que a capacidade do corpo de expressar seus sentimentos e sensações interiores foi vital no interesse e desejo de Graham pela dança. Apesar de ter sido uma garota atlética, ela nunca sentiu grande interesse pela dança durante a sua infância.

Quando ela tinha 10 anos, uma de suas irmãs desenvolve asma e sua família se vê obrigada a mudar para a Califórnia por causa do clima mais adequado. É assim que, em 1911, já na sua adolescência, Martha tem o seu primeiro contato com a dança: a Companhia de Ballet da bailarina Ruth S. Denis se apresenta na Mason Opera House em Los Angeles.

Inspirada pelo desempenho dela, Graham se matricula em um colégio orientado para as artes, e depois na recém-inaugurada Escola de Dança Denishawn.

A Denishawn foi fundada por Ruth S. Denis e seu marido Ted Shawn, e seu objetivo era ensinar técnicas de dança da América e do mundo. Ao longo de oito anos, tanto como aluna quanto como professora, Denishawn foi o seu segundo lar.

Ao contrário de Isadora Duncan, utilizando as palavras de Garaudy, "ela não quis se identificar com os ritmos da natureza":

Eu não quero ser uma árvore, uma flor, uma onda ou uma nuvem. No corpo de um bailarino devemos, como espectadores, tomar consciência de nós mesmos. Não devemos procurar uma imitação das ações cotidianas, dos fenômenos da natureza ou de criaturas exóticas de outro planeta, mas sim alguma coisa deste milagre que é o ser humano motivado, disciplinado e concentrado. A vida, contrariamente à puritana, é uma aventura, uma forma de expansão do homem que exige extrema sensibilidade para ser realizada com graça, com dignidade e com eficácia… O corpo e alma estão implicados de forma indivisível nesta experiência da vida, e a arte pode ser vivida por um ser total. Só uma sensibilidade apurada e exaltada realiza esta concentração no instante que é a verdadeira vida.

Foi uma das principais representantes da dança contemporânea nos EUA, sendo conhecida mais tarde como a mãe da dança moderna. Tinha como objetivo desvendar a alma humana. Ela dizia de seu próprio corpo:

Os séculos e seus eventos passaram por ele. Como os pintores e arquitetos modernistas eliminamos qualquer elemento decorativo ou supérfluo da nossa forma de expressão.Sua teoria de movimentos começou quando na adolescencia ouviu seu pai, que era médico de distúrbios mentais, dizer que tratava seus pacientes de acordo com a forma a qual esses se moviam, Martha dizia que "O corpo diz o que as palavras não podem dizer". Deu início a sua carreira de bailarina aos 22 anos logo após a morte de seu pai.

Sua técnica de trabalho era voltada para a respiração, inspiração-contração, expiração-relaxamento, e também para o idealismo social e por uma forma melhor de vida. Muitas coisas se passaram no trajeto de sua carreira: mudança social, moda, gerações, e Martha sempre criando novos trabalhos, acompanhando todas essas mudanças. Dirigiu sua companhia até a morte (1991) e, aos 80 anos de idade, criouActs of Light. Morreu em Nova York transformando-se em uma lenda no meio da dança.


Fontes: www.conexaodanca.art.br

http://pt.wikipedia.org/wiki/Martha_Graham

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