
Tendência estética e filosófica de mostrar o ridículo da condição humana e provocar o riso. Termo derivado de antiga crença na influência dos fluidos do corpo sobre o caráter dos indivíduos. "Não há comicidade fora do que é humano. Uma paisagem pode ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia, mas jamais risível. Riremos de um animal por surpreender nele uma atitude de homem, ou uma expressão humana. (...) Já se definiu o homem como um animal que ri. Poderia dizer-se também que é um animal que faz rir (...)." Essas observações do filósofo francês Henri Bergson abordam o humor no que ele tem de mais característico: ser próprio do homem. O termo latino humor significa "líquido", "umidade". Da antiga crença na influência dos fluidos do corpo sobre o estado de ânimo das pessoas veio o uso da palavra "humor" como sinônimo de "gênio", "temperamento". Posteriormente, o termo voltou a evoluir quanto ao significado. O dramaturgo inglês Ben Jonson, no final do século XVI, utilizou a palavra inglesa humour para definir a personalidade extravagante e aplicou a teoria dos humores aos personagens que atuavam em sua comédia. No século seguinte impôs-se o uso, no francês, de humeur no sentido moderno de tendência para o gracejo. A literatura de todos os países exibe, no entanto, desde tempos muito anteriores ao uso da palavra humor, a tendência a mostrar de maneira jocosa as incoerências da sociedade e a caçoar do absurdo e do ridículo. Teorias do riso - No clássico Le Rire (1900; O riso), Bergson afirma que o risível consiste numa certa rigidez mecânica que substitui a flexibilidade atenta e viva que se espera das pessoas, como se observa por exemplo nos movimentos duros de Carlitos, o personagem cinematográfico de Charles Chaplin. A comicidade resulta da superposição do mecânico ao vital. Com relação à comicidade das formas, Bergson diz que pode tornar-se cômica qualquer deformidade que se possa imitar. A fisionomia cômica inclui algo de rígido ou fixo na mobilidade normal do rosto humano, como o franzir das sobrancelhas ou o repuxar da boca. Quanto mais a expressão sugerir a idéia de ação mecânica, mais engraçada será. O orador que ao longo do discurso repete os mesmos gestos torna-se cômico, porque se a vida muda de instante a instante, os gestos deveriam acompanhar essa mudança e não poderiam ser então imitados. O homem é imitável, acrescenta Bergson, na medida em que deixa de ser ele mesmo, pois imitar alguém é revelar e reproduzir a parte mecânica de sua personalidade. O ridículo das cerimônias e das indumentárias solenes decorre da imposição da forma rígida à matéria flexível, em que o artificial substitui o natural. Na confluência da pessoa que se torna objeto, ou do objeto que se torna pessoa, surge o cômico. Ri-se, diz Bergson, sempre que uma pessoa, por aquilo que faz ou diz, dá a impressão de ser uma coisa. Em Der Witz und seine Beziehung zum Unbewussten (1905; O gracejo e sua relação com o inconsciente) Freud estuda a piada, a comicidade e o humor à luz dos princípios gerais da psicanálise. Observa que a pilhéria é a mais social das funções anímicas destinadas à obtenção de prazer. Ri-se dos palhaços porque seus gestos parecem excessivos e inadequados. A comicidade decorreria assim de um consumo de energia superior ao que se julga necessário. O riso que resulta da consciência dessa desproporção exprime também o sentimento de nossa superioridade. O prazer cômico nasce, portanto, do confronto entre o comportamento da pessoa observada e o do observador. Fonte de comicidade é também a relação com o que irá ou poderá acontecer. Os movimentos supérfluos, provenientes da desproporção entre o esforço a que se predispõe o jogador, por exemplo, e a leveza inesperada da bola, podem tornar-se cômicos. Por isso, Freud cita Kant: "O cômico é uma esperança decepcionada. Literatura de humor - As comédias de Aristófanes são um dos precedentes mais antigos de humorismo na literatura. Elas escarnecem impiedosamente dos políticos mais destacados e das figuras intelectuais da Atenas do século V a. C. Entre os romanos, além dos comediógrafos Plauto e Terêncio, destacaram-se os autores de obras satíricas, tanto em verso, como Juvenal, quanto em prosa, como Petrônio e Apuleio. Na Idade Média, o humorismo predominou nas farsas, originadas na França, como a do Mestre Pathélin, de autor anônimo. Rabelais tornou-se um clássico da literatura satírica no começo do Renascimento. Nos contos de Boccaccio, no século XIV, e nos poemas de François Villon, no século seguinte, encontram-se os prenúncios do humor moderno, pois ambos procuram a denúncia além do imediatismo da sátira. Os ideais renascentistas de harmonia e classicismo não favoreceram o cultivo do humor, pelo menos na literatura erudita, embora se devam assinalar exceções como o italiano Pietro Aretino. No século XVI, no entanto, o humor popular floresceu na Itália com os personagens arquetípicos da commedia dell'arte, que representavam pantomimas e diziam falas improvisadas sobre um roteiro fundado em desencontros amorosos. No século XVII, com o barroco, o humor encontrou terreno fértil. A ruptura da concepção renascentista do mundo fez com que ganhasse força uma visão desiludida da vida, e se impôs uma estética na qual se destacava em grande medida a espirituosidade, que com freqüência surgia para dar expressão ao cômico. O humor aparece muito, por exemplo, nas obras de Shakespeare e constituiu elemento essencial no D. Quixote de Cervantes. A novela picaresca espanhola inaugurou um tipo de narrativa de humor de costumes que teria grande influência posterior. Na França, Molière fazia rir a corte com suas comédias, nas quais predominavam a crítica à afetação, à hipocrisia social e religiosa e à arrogância. Na Inglaterra, ainda no final do século XVII, houve uma depuração do conceito de humor. Este passou a ser considerado como um recurso para pôr à mostra os aspectos ridículos ou incoerentes do cotidiano e distinguiu-se assim do puramente cômico ou burlesco, que buscava apenas o riso e denunciava sobretudo o que era manifestamente reprovável ou grotesco. Na literatura britânica do século XVIII desenvolveu-se um humor marcadamente satírico, cujo principal representante foi Jonathan Swift, autor das célebres Viagens de Gulliver. Destacaram-se também outros brilhantes humoristas da época, como Laurence Sterne e Henry Fielding, que popularizaram na Europa o humor inglês. Na França, ao mesmo tempo, cultivava-se um humor revestido de ironia, que acentuava os aspectos ridículos de uma situação ao expô-la de uma forma pretensamente séria. Tal humor atinge a perfeição com Montesquieu nas Lettres persanes (Cartas persas), descrição da vida em Paris por dois supostos viajantes persas, e nos contos de Voltaire, sobretudo Candide, história das desventuras de um jovem educado nos princípios do otimismo. Durante o século XIX surgiram na Alemanha muitos teóricos do humor. Jean Paul (Johann Paul Richter) formulou uma teoria do humor como forma romântica do cômico. No Reino Unido, Charles Dickens incorporou à primitiva veia irônica do humor um fundo de ternura e compaixão, patente em muitas de suas obras. O humor como instrumento de crítica social aparecia já no que muitos consideram o primeiro romance hispano-americano El periquillo sarniento (1819; O periquito sarnento), do mexicano José Joaquín Fernández de Lizardi. Na Rússia, além de Gogol, destacou-se o humor fino e penetrante de Tchekov, veiculado por uma narrativa cheia de ambigüidade e sutilezas.Essa é também a atmosfera da obra de Machado de Assis, do fim do século XIX, cujo humor penetrante é repassado de um pessimismo irredutível. Homem de meios-termos, ambigüidades e humor sub-reptício, precedeu assim a concepção moderna de humor que, segundo Luigi Pirandello, é uma "lógica sutil" e também "o sentimento do contrário". O paradoxo é o forte dos textos de Oscar Wilde e Lewis Carroll. Ainda na virada do século brilharam na literatura humorística o americano Mark Twain e o britânico Bernard Shaw. Os franceses Auguste Villiers de L'Isle-Adam e Alfred Jarry notabilizaram-se como cultores do humor negro, aquele em que predominam as notas cínicas e aparece o tema da morte. O humor contemporâneo ampliou em grande medida suas fronteiras. Abrange tanto o sociológico como o histórico e, transcendendo às fronteiras nacionais, compreende todas as manifestações da atividade do homem. O teatro do absurdo, por exemplo, utilizou um humor corrosivo para apresentar sua desolada visão da existência humana. De maneira similar, muitos grandes romancistas, do irlandês James Joyce ao alemão Günter Grass e o cubano Cabrera Infante, empregaram o humor como meio para penetrar na falsidade do mundo convencional. Os novos meios de comunicação, como o cinema, o rádio e a televisão, possibilitaram o surgimento de novas formas de humor, com linguagens específicas e adequadas nesses veículos. ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda |
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