por Ana Elvira Wuo
Na rota das
caravanas da Idade Média, as feiras e praças públicas se constituíam nos principais
entrepostos comerciais e, conseqüentemente, nos locais de maior afluência
popular. Nelas a vida acontecia assim: uns vendiam sua produção, outros
abasteciam e todos se inteiravam das novidades trazidas pelos mercadores. Essa
efervescência contribuía para torná-las ponto de encontro de artistas que
perambulavam pelas estradas: os saltimbancos. Esses artistas que se expressavam
nas formas mais variadas - acrobacia, equilibrismo, salto, ilusionismo, mímica,
ventríloqua, música etc. - exibiam-se ao ar livre para qualquer platéia. Não se
fixavam em nenhum lugar porque traziam no sangue o nomadismo atávico
(OLIVEIRA,1990).
Numa sociedade marcada por uma conduta de
convívio tendendo mais para a seriedade, a arte de fazer rir tem viajado
através dos tempos, alterando o tom ríspido das ações das pessoas e das
instituições, promovendo aquilo que todos buscam como meio para burlar a
rigidez social, o riso. O meio burlesco é representado desde os primórdios por
personagens cômicos que desmascaravam o rigor social por meio de uma cultura
popular que parte de uma lógica específica marcada pela contradição e
ambigüidade, isso influenciou a lógica do circo.
Segundo BAKHTIN (1987), na Idade Média e no
Renascimento, o riso se manifestava de várias formas, opondo-se à “cultura
oficial, ao tom sério, religioso e feudal da época”, é o cômico fazendo parte
da cultura popular. Dentro dessas manifestações, faziam parte do carnaval,
ritos e cultos cômicos os bufões tolos, gigantes, anões e monstros, palhaços de
diversos tipos e categorias. O riso no contexto de Rabelais, tem função de
libertar a sociedade da lógica dominante do mundo. Ele transforma a seriedade,
propondo significados que permeiem as trocas da tonalidade da rigidez à
comicidade, com caráter renovação, de morte ao antigo. No cômico, a morte não
aparece como uma oposição à vida, mas como uma fase necessária para a renovação
(BAKHTIN,1987).É de alguma maneira o aspecto festivo do mundo inteiro, em todos
os seus níveis, cria uma espécie de segunda revelação do mundo através do jogo
e do riso (BAKHTIN,1987).
Dentro desse contexto, DUARTE (1995) coloca
que existem manifestações portadoras de uma lógica diferente das nações
racionalizantes, sendo as primeiras valorizadoras de espetáculos verossímeis e
representativos de um real, principalmente, nos espetáculos de teatro e circo,
predominando nessas perspectivas a ambigüidade e o descomprometimento com os
esquemas racionais.
Se avaliarmos, o clown por essa lógica
diferente das noções racionalizantes, compreenderemos que ele desempenha função
semelhante à dos bufões e bobos medievais quando brinca com as instituições e
valores oficiais. Ele, pelo nome que ostenta, pelas roupas que veste, pela
maquilagem (deformação do rosto), pelos gestos, falas e traços que o caracterizam,
sugere a falta de compromisso com qualquer estilo de vida, ideal ou
instituição. É um ser ingênuo e ridículo; entretanto, seu descomprometimento e
verdadeira ingenuidade lhe dão poder de burlar situações, pessoas com certa
impunidade (BURNIER,1996). Apesar disso, os personagens bárbaros, os artistas,
nômades, desenraizados, quase vagabundos, são principalmente civilizadores e
exercem ricas funções de produção, transformação e difusão cultural
(DUARTE,1995).
Esse passageiro ao avesso, se materializa
nos personagens cômicos, nos clowns, nos palhaços de feira; está embutido em
todos os seus ancestrais cômicos, revelando as imagens de corpos que estremecem
no devaneio bipolar de sonhos-realidades, no espírito do riso que transpassa o
som de nossa memória do picadeiro e capta em fuga nossas ilusões. O riso é
mistério que desmistifica o opressor. Segundo BURNIER (1996), o princípio
desmistificador do riso, presente na cultura popular medieval renascentista,
apareceu no cômico circense, fundamentado basicamente na figura do palhaço. Em
suas andanças pelo tempo, o clown ocupou diversos espaços: a rua, a praça, a
feira, o picadeiro, o palco, o cinema.
Contextualizar esses personagens e o riso em
si, seria fechar a criatividade em formas e tempos. Arte e espírito cômico
passeiam pelos espaços, dirigindo-se ao âmago da criação sem se estagnarem no
passado ou no presente, mas envolvidos com o clima de fugas e devaneios de
corpos em desequilíbrio social, que passam a formar as linhas da travessia do
trapezista pelos olhos do espectador na corda bamba, saltando para a bola
vermelha do nariz do clown e escorregando no redondo do mundo, fazendo círculos
no grande picadeiro terrestre, veículo condutor do viajante nômade, o clown.
Vemos que, no decorrer da história, esses atores,
tipos cômicos, palhaços, bufões não deixaram de fazer parte do divertimento das
pessoas, apesar do controle existente sobre eles. Esses artistas resistiram até
nossos dias, porque esse corpo se tornou resistente a regras e normas e se
transformou. Ele é o corpo do artista que precede o espírito e o corpo dos
atores, cômicos, clowns, para ainda nos fazerem rir das dificuldades da vida.
Resiste até nossos dias com uma lógica específica como movimento contrário ao
controle social e aos processos civilizadores. Olhamos para esse movimento como
um tipo de resistência a qual a arte imprime, embora existam processos para
estabelecer o funcionamento das estruturas sempre existirá na arte o mecanismo
de adaptação e transformação, que guarda a existência secreta de outras
divindades que formam a identidade de subverter independente da realidade
existente. É a alma, o espírito de Dionísio se mostrando em todas as partes e
em todos, buscando a renovação por meio da ressurreição do divino, representado
por Dionísio, e da morte de antigas convenções.
O viajante que passa pelos tempos, participa
na construção de sonhos, de esperança e de alegria, para comungar e consumar o
seu ato e ofício em que os problemas do clown são solucionados pelo globo
vermelho visto por meio do grande espetáculo dos fools(espíritos dos clowns),
subvertendo e burlando a ordem das coisas para que o espectador adorne-se com a
arte de rir da sua própria dor (WUO,1999).
“O clown nos ensina rir de nós mesmos”
(MILLER,1989).

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